Tenho de me preocupar se ronco?

O ressonar é uma queixa muito frequente na população geral, presente em cerca de 60% dos homens e em 40% das mulheres com idades entre os 41 e os 65 anos, podendo ser apenas um sintoma incomodativo para os companheiros de sono ou nalguns casos traduzir uma patologia grave como a Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS).

Qualquer indivíduo pode ser um ressonador ocasional em algum período da sua vida, nomeadamente se tiver obstrução nasal secundária a um desvio do septo nasal, a polipose nasal, a síndrome gripal ou a rinite alérgica. O ressonar também é muito frequente nos idosos, devido a um maior relaxamento da musculatura faríngea neste grupo etário. O álcool funciona ainda como um potente relaxante muscular pelo que o seu consumo antes de dormir poderá também levar a ressonar durante o período noturno.

Apesar do ressonar ser muito frequente na população geral, pode levar a uma má qualidade do sono, com consequente impacto negativo no desempenho das atividades diurnas. Assim, torna-se fundamental identificar as causas do ressonar para uma abordagem terapêutica adequada e assim restaurar a qualidade de sono perdida.

O ressonar é o sintoma mais frequente da SAOS, podendo ocorrer em cerca de 95% dos doentes. Apenas 6% dos doentes com apneia do sono não ressonam, sendo de salientar que esta queixa pode estar ausente nos doentes submetidos previamente a tratamento cirúrgico (uvulopalatofaringoplastia).

O ressonar associado à SAOS caracteriza-se por ser irregular, muitas vezes intenso (60-100 decibéis), com uma frequência elevada e cíclico, sendo intercalado pelas paragens respiratórias. O ressonar associado à SAOS diferencia-se do ressonar isolado sobretudo pelo seu carácter cíclico. O ronco resulta do ruído resultante das vibrações dos tecidos moles da faringe, sobretudo do palato e das paredes laterais da orofaringe, secundárias à passagem do ar por uma via aérea estreita e obstruída. O consumo de álcool, o uso de sedativos e a privação de sono agravam quer o ressonar quer a apneia do sono.

Apesar de não existirem diferenças objetivas na intensidade do ressonar entre homens e mulheres, estas queixam-se menos frequentemente de ressonar e descrevem-no habitualmente como sendo de intensidade ligeira. Esta diferença pode conduzir a um atraso no recurso a consulta de medicina do sono com consequentes atrasos no diagnóstico e tratamento.

O diagnóstico de SAOS torna-se mais provável se o ressonar ocorrer em mais de duas noites por semana, se for demasiado intenso para ter um impacto substancial no casal, se também ocorrer noutras posições para além da supina, se existir excesso de peso ou obesidade, hipertensão arterial e se estiver associado a outros sintomas, nomeadamente: apneias visualizadas, sensação de asfixia noturna, sensação de sono não reparador, cefaleias matinais, hipersonolência diurna ou alterações neurocognitivas (redução da atenção, concentração, memória e humor). Vários estudos têm mostrado uma associação entre o ressonar e a presença de hipertensão arterial mesmo em indivíduos ressonadores sem apneia do sono.

Assim, atendendo ao risco aumentado de acidentes laborais e de viação e de complicações cardiovasculares, é fundamental o diagnóstico de apneia do sono, devendo o doente ser encaminhado para uma consulta especializada em medicina do sono, a fim de se fazer um diagnóstico e tratamento corretos.

A polissonografia é o exame de referência que estabelece definitivamente o diagnóstico de SAOS. Este exame, não invasivo, inclui a análise simultânea e contínua, durante uma noite de sono, de variáveis neurofisiológicas e cardiorrespiratórias.

A abordagem terapêutica passa pela investigação da etiologia da SAOS, pelo estabelecimento da gravidade clínica e pela elaboração de um plano terapêutico adequado.

Todos os doentes com SAOS devem ser sujeitos a medidas terapêuticas gerais, assentando na adoção de medidas que visam combater eventuais fatores de risco potenciadores da SAOS, nomeadamente perda ponderal, prática de exercício físico, evicção de álcool e sedativos e tratamento de doenças associadas, como por exemplo hipotiroidismo.

O CPAP é no momento atual a terapêutica de maior eficácia comprovada. Consiste na aplicação duma pressão positiva contínua na via aérea superior, funcionando como uma almofada pneumática que impede o colapso de regiões vulneráveis da via aérea superior.

O doente deve ser submetido a um programa de ensino relativamente à patologia, os seus riscos e os benefícios do tratamento para promoção de uma boa adesão ao CPAP. O avanço da tecnologia destes equipamentos, bem como o acompanhamento regular por parte das empresas de cuidados domiciliários têm também contribuído para a melhoria da adesão, fundamental para a eficácia terapêutica.

O tratamento com CPAP elimina o ressonar, reverte as alterações neuropsicológicas, nomeadamente a hipersonolência diurna, reduzindo o risco de acidentes de viação e laborais e diminui grandemente o risco de complicações cardiovasculares.

 

Paula Pinto

Coordenadora da Unidade de Sono e Ventilação não Invasiva do Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte / Professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa


Artigo do livro "Bons Sonhos", uma iniciativa da Associação Portuguesa de Sono, em parceria com a Philips, que reúne 11 artigos escritos por autores da Medicina do Sono portuguesa.

 

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