Porque acordo tanto durante a noite?

Durante o sono podem existir microdespertares que correspondem a intrusões do estado de vigília no sono e, se ocasionarem interrupção definitiva, falamos em despertares ou acordar. Quando são frequentes ou prolongados surge a consciencialização e perceção de múltiplos acordares durante a noite.

As causas que podem condicionar múltiplos despertares noturnos são variadas.

A síndrome de apneia obstrutiva de sono (SAOS), uma das causas mais prevalentes, deve-se ao encerramento intermitente das vias aéreas superiores durante o sono (apneias), mais de 5 vezes/hora, condicionando frequentemente alterações na oxigenação do sangue, microdespertares e fragmentação do sono.

A gravidade da SAOS associa-se a maior fragmentação de sono e perceção de múltiplos acordares.

As queixas comummente associadas à SAOS são a roncopatia, pausas respiratórias assistidas, sensação de sono pouco reparador, sonolência diurna e os múltiplos despertares noturnos. Muitas vezes, esta última pode ser a queixa mais valorizada e o que motiva o recurso à consulta médica. Por outro lado, caso se confirme o diagnóstico de SAOS com indicação para tratamento com pressão positiva que impede o colapso da via aérea poderá ser resolvida. Há́ vários opções: “CPAP”, “Auto-CPAP”, "BiPAP”. A escolha é feita pelo médico em função das alterações detetadas nos exames de diagnóstico, das características do doente e da resposta clínica inicial à primeira opção.

Com o tratamento eficaz, as apneias e o ressonar desaparecem, o esforço respiratório diminui, o oxigénio normaliza e os microdespertares que acompanham as apneias desaparecem sendo a fragmentação do sono corrigida. O tempo e a arquitetura normal de sono são recuperados, há́ um aumento imediato de sono profundo.

A perceção de acordar durante a noite também pode ser sinal de insónia.

Insónia é uma experiência subjetiva de sono inadequado ou de qualidade limitada, apesar de existir uma oportunidade e condições adequadas para dormir, com prejuízo para o funcionamento social, ocupacional e de outras atividades diurnas. Refere-se a Insónia Intermédia quando a dificuldade é em manter o sono.

Os distúrbios do humor e ansiedade estão presentes em 30% a 50% dos doentes com insónia, bem como, as doenças médicas, em que a dor é a mais frequente, a polimedicação e o abuso de substâncias e a sobreposição com a SAOS (25-30% dos indivíduos com insónia têm SAOS) devem ser sempre equacionadas e abordadas.

Aproximadamente 90% das pessoas com Síndrome das Pernas Inquietas (SPI) refere marcada dificuldade em iniciar e manter o sono podendo, portanto, apresentar múltiplos acordares durante a noite. A SPI é uma doença crónica e progressiva com impacto importante na qualidade de vida. Habitualmente surge uma sensação de desconforto nas pernas, não dolorosa, acompanhada de uma irresistível vontade de as mexer. Em alguns casos, as queixas atingem também os braços.

A prevalência desta síndrome não é bem conhecida, com estudos sugerindo valores entre 0,1% e 15,3%. Essa prevalência tende a aumentar com a idade.

A gravidade das queixas e a velocidade de progressão da doença parecem ser maiores quando a doença se manifesta pela primeira vez mais tarde. É mais frequente no género feminino, é comum em mulheres grávidas, sobretudo nos últimos três meses de gravidez e geralmente melhorando ou desaparecendo algumas semanas após o parto.

Desta forma, sempre que surjam queixas de múltiplos despertares durante a noite, devem ser convenientemente investigadas pois podem ser um sintoma de uma patologia cujo diagnóstico e respetivo tratamento pode ter impacto positivo não só nas repercussões imediatas na qualidade do sono e na qualidade de vida, mas também a longo prazo nas comorbilidades associadas.



Mafalda van Zeller

Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar e Universitário de São João
Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Artigo do livro "Bons Sonhos", uma iniciativa da Associação Portuguesa de Sono, em parceria com a Philips, que reúne 11 artigos escritos por autores da Medicina do Sono portuguesa.

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