Aleitamento materno – efeito protector no ressonar da criança?

Todos sabemos que o melhor começo de vida para um bébé é ser alimentado ao peito da mãe. Ao estreitamento dos laços entre mãe e filho somam-se outros benefícios, uns mais divulgados do que outros.

E porquê?

Os bébés exclusivamente alimentados com leite materno nos primeiros 6 meses de vida têm uma nutrição perfeita e tudo o que necessitam para um saudável crescimento corporal e desenvolvimento cerebral. A transmissão dos anticorpos maternos confere protecção para infecções respiratórias, gastrointestinais e urinárias e a longo prazo para a asma, obesidade e diabetes, entre outras afecções. Proporciona à mãe vantagens em termos de saúde física e é mais prática e económica a sua administração.

Mas há mais!

Estudos recentes sugerem que quanto maior fôr o tempo de amamentação, menor a probabilidade de ressonar na idade escolar. O ressonar é o sinal mais frequente da perturbação da respiração durante o sono e ocorre em cerca de 15% das crianças. Muitas vezes associa-se a outras manifestações como paragens da respiração (apneias), sono agitado, perturbações do comportamento e da aprendizagem, problemas cardiovasculares e do crescimento…. O seu aparecimento pode ser secundário, entre outros factores, ao aumento das dimensões do tecido linfóide (amígdalas e adenóides) a que se associam alterações da anatomia da face e dos músculos da língua e da boca.

A amamentação tem um papel importante no desenvolvimento da função de deglutição da língua (engolir) e promove uma melhor respiração. É um reflexo complexo que requer uma força considerável da criança. O peito, maleável, adapta-se à boca da criança, e a língua desenvolve um movimento peristáltico por baixo do peito (ver figura). Este movimento é crucial para o desenvolvimento adequado da deglutição, da mandíbula e para o alinhamento dos dentes e a moldagem do véu do palato. Se o peito for substituído por um objecto mais duro (tetina ou chucha), é a boca da criança que se lhe tem que moldar de acordo com o seu formato e pode sofrer alguma modificação na sua forma.

Figura – Posição e movimento da língua durante a amamentação.

A protecção imunológica conferida pelo leite materno permite a diminuição das infecções virais e a consequente inflamação das vias aéreas e hipertrofia do tecido linfóide, factores que favorecem o estreitamento e o colapso das vias aéreas, de que resulta dificuldade na respiração. Deste modo, tanto o factor anatómico como o factor funcional podem assumir um papel relevante na prevenção da perturbação da respiração durante o sono.

A amamentação parece desempenhar um papel preventivo na ocorrência de perturbação respiratória do sono da criança, devendo assim ser acrescentada ao rol de vantagens da amamentação e deve ser, ainda, referida nas medidas de prevenção do ressonar e até da apneia obstrutiva do sono.

Maria Helena Estêvão
Pediatra com Competência em Medicina do Sono

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