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Estudar à noite e efeitos na saúde

Vanda Clemente

                                                            
A criação de um espaço físico com horários alargados para o estudo, parece uma excelente iniciativa; constitui uma mais-valia, na medida em que, provavelmente, nem todas as escolas e universidades dispõem desses espaços ou têm, habitualmente, horários limitados e, por isso, condicionam a actividade dos estudantes.

Contudo, do ponto de vista da Medicina do Sono, consideramos extremamente importante ter em conta aspectos fundamentais.
Um sono reparador é determinante do bom funcionamento diurno, da saúde e do bem-estar geral dos estudantes. Para que haja um sono reparador, temos de garantir três condições: uma adequada duração do sono, uma boa qualidade do sono e um momento em que o sono ocorre, igualmente, adequado.
Sabe-se, actualmente, que existe no mundo inteiro um número importante de jovens que não tem um sono com uma duração adequada. Em Portugal, os dados são similares. Ana Allen Gomes, psicóloga e investigadora da Universidade de Aveiro, realizou um estudo sobre o padrão do sono de 1654 estudantes universitários e verificou que 19% nunca ou raramente dorme o suficiente e que 26.8% dorme o suficiente apenas 1-2 noites por semana (Allen Gomes et al., 2009). Estes resultados são preocupantes, na medida em que a falta de sono conduz a problemas diversos. 
Falta de sono, perda de sono, sono insuficiente ou deficiente, ou privação do sono, é definido na Medicina do Sono como restrição da duração do sono, que pode ser aguda ou crónica, e tem consequências evidentes.
Entre as mais comuns, destaca-se o prejuízo cognitivo, por ser uma consequência inevitável e mais rápida da privação do sono. Produz diminuição do estado de alerta, da atenção e da concentração, do raciocínio e da memória de trabalho, e ainda das aptidões de resolução de problemas. O desempenho académico e a aprendizagem podem ser prejudicados.
As consequências de dormir pouco e/ou mal manifestam-se também ao nível comportamental. Gera diminuição da motivação, ansiedade e irritabilidade. Conduz a um aumento da impulsividade e, por isso, está associada a comportamentos de risco para a saúde, como por exemplo, falta de actividade física, uso de substâncias e acidentes de viação.
Jovens que não dormem, regularmente, um número de horas adequado tem maior probabilidade de desenvolver distúrbios da conduta e ficar deprimidos.
Claro que a restrição crónica do sono pode acarretar ainda efeitos mais directos na própria saúde física, nomeadamente, ao nível cardiovascular, digestivo e endócrino.
No que diz respeito, ao momento/”timing” em que o sono ocorre, existem variações endógenas individuais, ou seja, cada pessoa tem uma preferência óptima por determinada hora, para dormir e para realizar as suas tarefas diurnas. Os matutinos preferem adormecer cedo e acordar cedo, enquanto que os vespertinos preferem adormecer tarde e acordar mais tarde. Esta característica matutinidade-vespertinidade por ser uma tendência ligeira ou extrema. As pessoas com um cronotipo indiferente intermediário, que são a maioria, não revelam essa preferência e parecem ajustar-se melhor aos horários e rotinas impostas.

Poderíamos, então, pensar que um espaço de estudo aberto durante toda a noite estaria indicado para estudantes do tipo vespertino. De facto, estes preferem estudar até mais tarde. Contudo, mesmo as pessoas vespertinas tem dificuldade em fazer trabalho noctuno e quando o fazem e dormem durante o dia, dormem pior e um menor numero de horas, levando assim também a um processo de privação do sono. Não nos podemos esquecer que o Homem é uma espécie diurna e não nocturna, como outras espécies.
Sabendo nós que os adolescentes e jovens adultos apresentam, durante esta fase do ciclo de vida, um ritmo do sono-vigilia com tendência (biológica) para adormecer mais tarde (atraso de fase do sono), quando realizam actividades cognitivas estimulantes em horários tardios, esse atraso acentua-se (reforço comportamental) e pode levar também à privação do sono. Mostram dificuldades de concentração nas aulas da manhã, diminuição da participação nas aulas e do desempenho em geral.
Resultados curiosos obtidos no mesmo estudo da UA, indicam que os estudantes que vivem deslocados das suas residências de origem, evidenciam os horários de sono-vigília mais tardios durante a semana, os “deslocados” do sexo masculino apresentam mais «directas» para completar tarefas escolares e maior mudança dos hábitos de sono desde a entrada na universidade. Estes resultados levam-nos a reflectir sobre os efeitos dos potenciais candidatos à utilização de um espaço de estudo aberto durante toda a noite, ou seja, de estudantes “deslocados”.
Acresce dizer que há estudos que mostram que estudantes universitários com atraso de fase do sono marcado tendem a apresentar mais dificuldades de adaptação quando ingressam na vida profissional (e.g., Asaoka et al, 2014)

Face ao exposto, consideramos que é necessário ter uma enorme prudência na criação de espaços para estudo com horários nocturnos alargados, de modo, a não prejudicar estudantes quando o objectivo a priori é fornecer uma ajuda suplementar.

Vanda Clemente
Psicóloga Clínica
Mestre em Psicologia Clinica Cognitivo-Comportamental e Sistémica
Psicoterapêuta Cognitivo-Comportamental (APTC)
Sonologista (European Sleep Research Society
Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra
Associação Portuguesa de Sono