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Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono, HTA e Doença Cardiovascular

A síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS), pela sua prevalência e consequências clínicas, nomeadamente as de natureza cardiovascular, é actualmente considerada um problema de saúde pública.

Vários estudos epidemiológicos sugerem que a SAOS pode ser um factor de risco independente para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, nomeadamente hipertensão arterial, doença coronária e disritmias, sendo responsável pelo aumento da morbilidade e mortalidade cardiovascular observada nestes doentes. Apesar desta associação entre SAOS e patologia cardiovascular, a relação causal entre estas entidades permanece ainda por esclarecer, sendo apontados vários mecanismos patogénicos possíveis, nomeadamente a hiperactividade do sistema nervoso simpático, a disfunção endotelial, a activação selectiva de vias inflamatórias, o stress oxidativo vascular e a disfunção metabólica.

Um estudo epidemiológico de referência – Sleep Heart Health Study, demonstrou que a SAOS está relacionada com um aumento do risco cardiovascular e que este risco é tanto mais elevado quanto maior a gravidade da SAOS. Além disso, existe um padrão circadiário de morte súbita na SAOS, tendo os doentes com esta patologia um pico de morte de causa cardíaca durante as horas de sono, entre a meia-noite e as seis da manhã, contrariamente aos indivíduos sem SAOS, em que o pico de morte de causa cardíaca ocorre entre as seis da manhã e o meio-dia.

 A terapêutica com CPAP diminui grandemente o risco de eventos cardiovasculares fatais, assim como o número de eventos não fatais, como enfarte, acidente vascular cerebral e eventos coronários requerendo angioplastia ou cirurgia de bypass.

A associação entre a SAOS e a hipertensão arterial tem sido a que mais estudos tem suscitado e cuja relação causal está mais bem estabelecida, sendo o trabalho mais citado na literatura oestudo Wisconsin que mostrou que a apneia do sono é um factor de risco independente para hipertensão arterial, sendo esse risco tanto maior quanto maior a gravidade da doença. Um estudo realizado no Laboratório do Sono do Centro Hospitalar Lisboa Norte-Hospital Pulido Valente mostrou que numa amostra de 305doentes com SAOS, 60% dos indivíduos apresentavam hipertensão arterial. O padrão de hipertensão arterial destes doentes é totalmente diferente do observado nos indivíduos hipertensos não afectados pela SAOS, pois naqueles os valores tensionais não diminuemdurante a noite (tornam-se não dippers) e a hipertensão é muito frequentemente refractária à terapêutica. As últimas normas de abordagem diagnóstica da hipertensão arterial, referenciam a apneia do sono como um factor etiológico a despistar na presença de hipertensão arterial refractária à terapêutica e em doentes com um padrão não dipper nos registos ambulatórios de pressão arterial de 24 horas.

O tratamento com CPAP reduz a hipertensão arterial associada ao SAOS, um efeito que é notável a curto e a longo prazo, tendo sido provado que uma redução da pressão arterial de cerca de 10 mmHg se traduz numa diminuição significativa de eventos coronários (37%) e de acidentes vasculares cerebrais (56%).

Desta forma, os doentes hipertensos com clínica sugestiva de SAOS, bem como os doentes com hipertensão arterial refractária à terapêutica deverão ser enviados a um centro especializado em patologia do sono para realização de polissonografia para despiste de SAOS.

 

 

 

Professora Paula Pinto